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A conspiração da história afastou magistrado com senso de Justiça

20/01/2017

O CONSPIRADOR MAR DE PARATY

O mar de Paraty está para a política brasileira como o Triângulo das Bermudas esteve para o imaginário norte-americano nas décadas de 1960 e 1970.

Se naufrágios e desaparecimentos de aeronaves na região das Bermudas, na América do Norte, embalaram o folclore pós incidente de Roswell e marcaram uma geração que lia Seleções do Reader’s Digest e acreditava na existência de conspirações extraterrestres para subjugar a supremacia humana na Terra, haverá quem enxergue nas tragédias aéreas ocorridas nos últimos anos entre o litoral sul do estado do Rio de Janeiro e o norte de São Paulo uma conspiração da História contra nossa consolidação como nação democrática.

De 1992 para cá morreram naquela região, sempre em acidentes aéreos resultantes de voos empreendidos em dias de chuva intensa, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos e Teori Zavascki.

Ulysses, cujo corpo jamais foi encontrado, sumiu no mar junto com a mulher, Mora, e mais um casal de amigos pouco mais de um mês depois de consumado o primeiro impeachment de um presidente da República levado a cabo em todo o mundo: o de Fernando Collor.

Arquiteto do processo de abertura política do Brasil, Ulysses havia sido um dos maiores artífices da redemocratização nacional e tornou-se fiador da queda de Collor. Estava reservado a ele o papel de Conselheiro Supremo do governo Itamar Franco, que ora se iniciava naquele outubro de há 25 anos. Numa manhã de borrasca o mar de Paraty tragou a memória republicana e a consequência nata de homem de Estado que residiam juntos em Ulysses Guimarães.

Há menos de 3 anos, numa tragicamente inesquecível manhã chuvosa e fria de agosto, caiu em Santos o jatinho em que viajavam o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos e parte da equipe que o acompanhava nas viagens empreendidas pelo país. Haviam apenas iniciado uma campanha à Presidência marcada até ali por engenhosa construção de amplitude política e vigorosa semeadura de esperança. O jovem político pernambucano foi a mais habilidosa liderança forjada pelas urnas depois da ditadura militar. Era o único político capaz de efetuar, naquele momento, uma transição pacífica entre os tucanos do PSDB, determinados a voltar ao poder mas carentes de votos, e os petistas que dominavam o Executivo federal desde 2003 com a ascensão de Lula e a confirmação de sua popularidade nas urnas de 2006, 2010 e 2014.

Com Eduardo Campos morreu a possibilidade de transição suave e gregária entre esses dois pólos partidários do Brasil, separados por um PMDB que ora adere a um deles, ora a outro, e que sempre ficou à espreita para tomar de assalto os postos-chave da máquina pública. E isso enfim aconteceu em junho do ano passado, na esteira da deposição de Dilma Rousseff. A presidente deposta se ressentiu da habilidade revelada por Campos em 2005, quando foi um dos generais de Lula na luta contra um golpe da oposição que se urdiu no Congresso e foi debelado com maestria nos bastidores.

Ontem o mar de Paraty selou a biografia de Teori Zavascki, dando a ela um desfecho inesperado e abreviando a trajetória de um dos mais relevantes juristas contemporâneos do país.

Um entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, Zavascki sabia se conservar austero nas palavras num plenário em que passamos a assistir, nos últimos anos, a espetáculos deprimentes de provocações e arrivismos entre juízes.

Magistrado que sabia o valor e a eloquência dos autos, evitava antecipar votos ou desperdiçar palavras na mídia: pronunciava-se por meio das sentenças e dos despachos.

Senhor dos ritos e dos procedimentos dos processos que lhe cabia julgar, soube ter a dimensão de seu papel na História e puxou as orelhas até de candidatos a santos e a beatos, como Sergio Moro, quando este estraçalhou a impessoalidade e a moralidade da toga e agiu como protagonista da cena política divulgando ilegalmente e ao atropelo da decência conteúdos de conversas telefônicas captadas entre uma presidente da República e um ex-presidente.

Teori tornava grandes seus pequenos gestos. E conferir normalidade à missão gigantesca da qual estava incumbido – a de relatar os processos da Lava Jato no que tangia àqueles réus com prerrogativa de foro – era um comportamento diferente e salutar numa Brasília povoada por alpinistas biográficos.

A grande conspiração da História nesse enredo até ontem improvável da morte de Teori Zavascki foi a de privar o Brasil do julgamento de um juiz que se pronunciava com o senso de Justiça a lhe governar a alma, e não como auxiliar da promotoria dos justiçamentos fáceis de quem busca apenas escutar o senso comum. Teori parecia ter a coragem singela de ser ele mesmo em suas sentenças, e não aquilo que esperavam dele. Isso o tornava diferente. E gigante.

Sobre o autor
Luís Costa Pinto

Luís Costa Pinto, 48, é jornalista. Graduou-se na UFPE em 1990. Começou no jornalismo em 1988 no Jornal do Commercio do Recife. Trabalhou em redações de “Veja” (1990-96), “O Globo” (1997-98), “Folha de S.Paulo” (1997-98), “Época” (1998-2001) e “Correio Braziliense” (2001-02). Atuou como repórter especial, editor, chefe de sucursal no Recife e em Brasília e editor-executivo. Em 1992 recebeu os prêmios Líbero Badaró e Esso de Jornalismo por reportagens como “Tentáculos de PC”, “Pedro Collor Conta Tudo” e a cobertura do “Caso PC”. Em 1993 recebeu, junto com o jornalista Luciano Suassuna, o prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem por “Os Fantasmas da Casa da Dinda” (Ed. Contexto). Desde agosto de 2002 é sócio da consultoria Idéias, Fatos e Texto, empresa especializada em consultoria de comunicação, análise de cenários e marketing político. De 2013 a 2016 foi também vice-presidente do Grupo PPG (holding de agências de publicidade e live marketing).”

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